Paraguai entrega nota de repúdio a embaixador brasileiro após fala de Lula
Sexta-feira, 31 de Julho de 2026    14h09

Paraguai entrega nota de repúdio a embaixador brasileiro após fala de Lula

José Antonio Marcondes de Carvalho foi convocado pelo governo paraguaio pela declaração do presidente brasileiro sobre a Guerra da Tríplice Fronteira

Fonte: Mariana Catacci e Luciana Taddeo, da CNN
Foto: Chancelaria do Paraguai
Reunião de embaixador brasileiro com autoridades do Paraguai

 

O embaixador brasileiro José Antonio Marcondes de Carvalho recebeu uma nota de repúdio durante uma reunião com autoridades do Paraguai nesta sexta-feira (31), após ser convocado pelo governo paraguaio por uma fala do presidente Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice fronteira.

"Depois das conversas mantidas entre as Altas Partes e de uma análise medida e serena, governo da República do Paraguai expressa formalmente seu desagrado por estas declarações. As rejeita em todos os seus termos já que apresentam de maneira distorcida fatos históricos de singular relevância para o povo paraguaio", expressa a nota entregue ao embaixador brasileiro, endereçada ao chanceler Mauro Vieira.

O documento afirma ainda que os acontecimentos históricos "devem ser abordados com responsabilidade e espírito de reconciliação, sobre a base do respeito recíproco e do reconhecimento da complexidade dos processos que determinaram seu desenvolvimento".

O governo paraguaio ainda pede a devolução de um canhão e "dos demais troféus de guerra, assim como a entrega da cópia de todos os documentos históricos" no Brasil sobre a guerra, que para Assunção representam "um gesto de reparação com o Paraguai".

Em uma coletiva de imprensa após a reunião, o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, afirmou que o descontentamento com a declaração do petista foi expressado pelos mais altos canais diplomáticos e do Poder Executivo. Segundo ele, o embaixador brasileiro esclareceu durante a reunião que Lula não teve a intenção em desrespeitar ou insultar o país. Alliana disse que o governo paraguaio não tem interesse em aprofundar a crise.

"A distorção dos fatos históricos não contribui para consolidar o futuro comum de nossos povos", afirmou o vice. "Paraguai e Brasil são países irmãos. Compartilhamos uma extensa história de cooperação e uma agenda comum de enorme importância o desenvolvimento de nossos povos", completou, destacando a parceria entre os países no Mercosul e para a usina Itaipu, na fronteira entre as duas nações.

Alliana também reafirmou a vontade de manter um diálogo franco, respeitoso e construtivo com o Brasil e disse que a história deve ser um ponto de partida para um futuro próspero.

Além do vice, participaram da reunião o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, o vice da chancelaria paraguaia, Víctor Verdún, e um representante da embaixada brasileira. O ministro das Relações Exteriores do Paraguai anunciou a convocação do embaixador brasileiro na quinta-feira (30).

Na última sexta-feira (24), Lula afirmou que o Paraguai invadiu o Brasil, a Argentina e o Uruguai no século XIX, levando à Guerra da Tríplice Aliança.

"A gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina e aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos", disse.

A fala gerou indignação na população e na classe política paraguaia. Estimativas paraguaias indicam que cerca de 70% da população do país tenha morrido no conflito do século XIX.

O desconforto aumentou depois que o governo brasileiro negou a alegação da chancelaria paraguaia de que Lula e o presidente Santiago Peña teriam conversado por telefone sobre as falas do petista.

Na coletiva desta sexta, o chanceler Rubén Ramírez Lezcano reafirmou que Peña disse ter conversado com Lula.

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