Governo ignora Milei e avança acordo com Argentina para gás e fertilizantes
Quinta-feira, 30 de Julho de 2026    11h28

Governo ignora Milei e avança acordo com Argentina para gás e fertilizantes

Ideia do Planalto é que relação comercial não seja afetada por questões políticas

Fonte: Caio Junqueira
Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
Terminal de distribuição da Petrobras em São Sebastião

 

O Palácio do Planalto optou por ignorar a tensão diplomática com a Casa Rosada desde a posse de Javier Milei e avançar em parcerias comerciais estratégicas fechadas durante o governo Lula nas áreas de gás e fertilizantes.

A ideia é que nada da relação comercial seja afetado pela crise, segundo relatou uma fonte que acompanha de perto a mais recente crise entre os dois países.

O acordo referente a gás foi assinado em novembro de 2024, no âmbito da Cúpula do G20 em Brasília pelo Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, e pelo ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo. Trata-se de um memorando de entendimento para que o gás das reservas de Vaca Muerta na Argentina chegue ao Brasil.

O documento prevê a compra pelo Brasil de 2 milhões de metros cúbicos por dia de gás argentino. Esse volume deverá subir para 10 milhões de m³/dia em um horizonte de três anos e atingir 30 milhões de m³/dia em 2030.

Fontes do governo afirmaram na manhã desta quinta-feira (30) que o projeto está em curso e que a tensão com Milei em nada afeta o acordo. Disseram ainda que Vaca Muerta é estratégica para o Brasil tendo em vista que as reservas bolivianas estão diminuindo significativamente.

O Brasil pretende usar esse gás para desenvolver uma indústria nacional de fertilizantes, uma demanda do agronegócio nacional.

Por essa razão, o governo Lula também assinou em dezembro de 2024, na Embaixada do Brasil na Argentina, um Memorando de Entendimento de Cooperação para que a Argentina exporte potássio para o Brasil. O acordo foi assinado pelo governo subnacional de Mendoza e pelo Ministério da Agricultura do Brasil.

O mineral é essencial para produção de fertilizantes, insumo que o Brasil precisa muito e produz pouco, obrigando-o a importar de outros países.

Nos dois casos, a informação do governo brasileiro passada é de que os contatos entre as áreas dos dois países se mantiveram no sentido de aprimorar os acordos assinados e não foram, nem devem ser afetados pela crise entre Lula e Milei.

Os ministérios de Minas e Energia e o da Agricultura acompanham o avanço junto a seus pares argentinos com uma supervisão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, dado o interesse industrial envolvido.

No caso do gás, por exemplo, houve operações-piloto de importação da Bacia Neuquina por gasoduto ao longo de 2025 e autorizações regulatórias emitidas pela Agência Nacional de Petróleo para importação em base contratual.

Essa fonte relata que o interesse brasileiro é direto e estrutural: gás natural competitivo é insumo determinante para as cadeias de fertilizantes nitrogenados, petroquímica, vidro e cerâmica.

Ela diz ainda que no caso do potássio a lógica é a mesma: o Brasil importa a maior parte do potássio que consome de um conjunto restrito de origens, majoritariamente extrarregionais. Qualquer oferta adicional em região próxima, com menor exposição logística e geopolítica, é de interesse nacional. Caso do potássio argentino.

Acadêmicos brasileiros e argentinos apostam que a solução para a crise está justamente na busca de convergências comerciais entre os dois países.

Um estudo publicado em dezembro de 2025 pelo Conselho Argentino para Relações Internacionais, um dos principais institutos desta área no país vizinho, cita justamente o gás e fertilizantes como caminhos possíveis para a manutenção e estabilidade das relações.

O estudo se chama “Vínculo bilateral Argentina-Brasil: Rumo à busca de amortecedores em um cenário de percepções antagônicas e diminuição da interdependência econômica” e foi feito pelo pesquisador Esteban Actis.

“O trabalho buscou identificar uma série de dinâmicas que podem servir de amortecedores para frear a “queda” e alcançar novas demandas para um novo patamar onde a dinâmica bilateral possa se reconstruir. A integração gasífera surge como a grande carta na mesa, uma complementaridade energética inimaginável há uma década. Por sua vez, a necessidade do Brasil de garantir cadeias curtas e seguras de suprimentos para seu setor agrícola faz com que a Argentina ocupe um lugar insubstituível em matéria de fertilizantes”, diz o pesquisador.

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