Lula é aconselhado a adotar ajuste rápido em 2027, mas sem "Plano Levy"
Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026    13h36

Lula é aconselhado a adotar ajuste rápido em 2027, mas sem "Plano Levy"

Auxiliares recomendam ao petista medidas de contenção do gasto público logo depois de eventual vitória nas eleições, mas veem "choque" de 2015 como algo insustentável politicamente

Fonte: Daniel Rittner
Foto: REUTERS/Adriano Machado
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido aconselhado a propor medidas de ajuste fiscal logo depois de uma eventual vitória nas eleições de outubro ou, no máximo, no início de 2027, usando o capital político conquistado nas urnas para dar sinalizações de responsabilidade com as contas públicas.

Auxiliares próximos do petista sugerem, no entanto, que a postura de um governo Lula 4 não siga o caminho adotado pelo "Plano Levy" de 2015.

Trata-se de uma referência ao choque de medidas anunciadas por Joaquim Levy, ministro da Fazenda escolhido para o segundo mandato da então presidente Dilma Rousseff (PT), que tentou implantar um ajuste súbito para dar fim à gastança do período 2011-2014.

Levy enfrentou forte resistência de outros setores do governo, dos movimentos sociais e de partidos da esquerda. Elogiado pelo mercado, mas sem apoio político, ele acabou caindo com menos de um ano no cargo.

Para interlocutores de Lula, o ajuste fiscal em um eventual novo mandato do petista precisa ter sustentação política e mirar um "ponto de chegada", que é a estabilização da relação dívida/PIB até 2030, mas de forma mais gradualista.

Há, no entanto, um reconhecimento de que medidas serão necessárias. A linha é inverter a ordem do governo Lula 3, que começou com um forte crescimento dos gastos, com a PEC da Transição e a recomposição de programas sociais.

No Lula 4, auxiliares do presidente afirmam que será inevitável começar com uma contenção de despesas, mas tomam o cuidado de não antecipar medidas impopulares em plena campanha eleitoral, lembrando que o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, também tem evitado detalhar suas ações de ajuste fiscal.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já falou publicamente em reduzir o limite de crescimento real das despesas permitido pelo arcabouço, que hoje é de 2,5% ao ano, para um teto de 1,5%.

Segundo relatos, isso poderia ser estendido também ao aumento real do salário mínimo, gerando impacto para o gasto com aposentadorias e pensões.

Um dos temas presentes no plano de governo à reeleição divulgado na sexta-feira (7), a repactuação das emendas parlamentares -- que chegaram ao valor recorde de R$ 61 bilhões -- é tratada como prioridade por Lula.

Outra questão apontada como importante para o governo são os supersalários, principalmente no Poder Judiciário.

Os auxiliares do presidente enfatizam que, para avançar nesses dois pontos, o Executivo também precisaria dar sinais de que ele próprio está disposto a fazer sua parte e apertar os cintos -- e rapidamente.

Por isso, interlocutores de Lula tentam desfazer qualquer impressão de que a linha adotada será a do economista José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo à reeleição.

Na sexta à noite, minutos depois da divulgação do plano, Gabrielli divulgou um texto no qual afirma que equilíbrio fiscal não é um "fim em si mesmo" e descarta a possibilidade de mexer em temas como aumento real do salário, aposentadorias e revisão dos pisos constitucionais da saúde e de educação.

Pessoas próximas do presidente ressaltam que essas ideias não foram absorvidas pela campanha como um todo e acreditam que a divulgação do texto por Gabrielli foi justamente uma forma de apresentar contrapontos, como teses que não encontraram consenso interno.

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