A pressão dos Estados Unidos pode levar o governo brasileiro a deixar para depois das eleições a decisão sobre Daniel Perez, indicado pelo presidente Donald Trump para comandar a embaixada americana em Brasília, segundo fontes diplomáticas ouvidas.
A avaliação é que a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, aumentou o custo político de uma concessão imediata do agrément — o consentimento necessário para Perez assumir o posto.
Ao condicionar a reversão da medida à aceitação de seu indicado, o governo Trump elevou o tom da pressão e reduziu o espaço para uma saída discreta. Na leitura das fontes, uma autorização concedida agora poderia ser apresentada como uma demonstração de que Lula cedeu aos Estados Unidos.
O governo brasileiro, por sua vez, já vinha adiando uma resposta sobre Perez.
Diplomatas ponderam que o calendário eleitoral pode pesar na decisão, uma vez que os atritos com Trump reforçam o discurso de soberania adotado por Lula na campanha.
Manter o impasse, no entanto, também prolongaria o desgaste da relação bilateral e poderia dificultar negociações de interesse do Brasil, inclusive a tentativa de obter novas exceções às tarifas americanas.
A disputa em torno de Perez ainda interfere na definição sobre o futuro da própria representação brasileira em Washington.
Troca já estava no horizonte
Segundo fontes diplomáticas, a permanência de Maria Luiza Viotti na embaixada já não era considerada provável no próximo ano.
Viotti ocupa o posto desde 2023, e a expectativa no Itamaraty era de uma renovação no comando da missão em 2027. A revogação do visto, porém, complica uma substituição que já estava no horizonte diplomático.
Para nomear o sucessor de Viotti, o Brasil precisaria solicitar aos próprios Estados Unidos o agrément para o novo indicado. Na avaliação das fontes, Washington poderia retardar esse aval enquanto o impasse sobre Perez permanecesse sem solução.
Caso Viotti deixe o país antes da aprovação de um sucessor, a embaixada poderá ficar sob o comando do ministro Fernando de Oliveira Sena, número dois da representação, como encarregado de negócios interino.
A missão continuaria funcionando, mas com menor peso político na interlocução com a administração Trump, segundo os diplomatas consultados.
Viotti não foi declarada persona non grata nem recebeu ordem para deixar os Estados Unidos. Pode continuar no cargo, mas, com o visto revogado, não poderá sair e retornar ao país sem uma nova autorização.