Pressão dos EUA pode adiar aval a embaixador até depois da eleição
Quarta-feira, 05 de Agosto de 2026    06h26

Pressão dos EUA pode adiar aval a embaixador até depois da eleição

Diplomatas veem risco de calendário eleitoral prolongar impasse entre Brasília e Washington

Fonte: Julliana Lopes
Foto: Jose A. Iglesias/Miami Herald/Tribune News Service via Getty Images

 

A pressão dos Estados Unidos pode levar o governo brasileiro a deixar para depois das eleições a decisão sobre Daniel Perez, indicado pelo presidente Donald Trump para comandar a embaixada americana em Brasília, segundo fontes diplomáticas ouvidas.

A avaliação é que a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, aumentou o custo político de uma concessão imediata do agrément — o consentimento necessário para Perez assumir o posto.

Ao condicionar a reversão da medida à aceitação de seu indicado, o governo Trump elevou o tom da pressão e reduziu o espaço para uma saída discreta. Na leitura das fontes, uma autorização concedida agora poderia ser apresentada como uma demonstração de que Lula cedeu aos Estados Unidos.

O governo brasileiro, por sua vez, já vinha adiando uma resposta sobre Perez.

Diplomatas ponderam que o calendário eleitoral pode pesar na decisão, uma vez que os atritos com Trump reforçam o discurso de soberania adotado por Lula na campanha.

Manter o impasse, no entanto, também prolongaria o desgaste da relação bilateral e poderia dificultar negociações de interesse do Brasil, inclusive a tentativa de obter novas exceções às tarifas americanas.

A disputa em torno de Perez ainda interfere na definição sobre o futuro da própria representação brasileira em Washington.

Troca já estava no horizonte

Segundo fontes diplomáticas, a permanência de Maria Luiza Viotti na embaixada já não era considerada provável no próximo ano.

Viotti ocupa o posto desde 2023, e a expectativa no Itamaraty era de uma renovação no comando da missão em 2027. A revogação do visto, porém, complica uma substituição que já estava no horizonte diplomático.

Para nomear o sucessor de Viotti, o Brasil precisaria solicitar aos próprios Estados Unidos o agrément para o novo indicado. Na avaliação das fontes, Washington poderia retardar esse aval enquanto o impasse sobre Perez permanecesse sem solução.

Caso Viotti deixe o país antes da aprovação de um sucessor, a embaixada poderá ficar sob o comando do ministro Fernando de Oliveira Sena, número dois da representação, como encarregado de negócios interino.

A missão continuaria funcionando, mas com menor peso político na interlocução com a administração Trump, segundo os diplomatas consultados.

Viotti não foi declarada persona non grata nem recebeu ordem para deixar os Estados Unidos. Pode continuar no cargo, mas, com o visto revogado, não poderá sair e retornar ao país sem uma nova autorização.

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