Integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Palácio do Planalto, deve intensificar o embate em torno do tarifaço dos Estados Unidos como forma de tirar o foco da crise política provocada pelo atrito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Na avaliação de aliados do presidente, o conflito comercial com os Estados Unidos dá ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro a oportunidade de recolocar a disputa eleitoral no centro do debate e reduzir o desgaste provocado pela repercussão da crise no campo bolsonarista.
Integrantes do governo afirmam que não é a primeira vez que Flávio recorre ao governo Donald Trump para tentar conter um desgaste político. Eles citam a viagem do senador à Casa Branca em meio à crise provocada pela revelação de suas conversas com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, pedindo recursos para financiar o filme "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dias depois da visita, os Estados Unidos anunciaram a designação das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A segurança pública é um dos principais pilares do discurso de campanha de Flávio.
Já o governo Lula busca associar a ofensiva do senador aos interesses americanos e reforçar o discurso de defesa da soberania nacional. O próprio presidente passou a relacionar diretamente a atuação da família Bolsonaro à aplicação das tarifas, anunciadas pela primeira vez por Donald Trump em julho de 2025.
Até 15 de julho, os Estados Unidos decidirão se adotarão a proposta do USTR (Escritório do Representante Comercial) de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. Antes, na próxima terça-feira (7), Flávio Bolsonaro participará da audiência pública em Washington sobre o tarifaço, enquanto o governo Lula seguirá insistindo nas negociações bilaterais até o último minuto para evitar a penalização.
A troca de acusações sobre o tarifaço ganhou força nesta quinta-feira (2), após Flávio enviar ao governo americano um documento em que afirma que a manutenção das tarifas representaria uma "vitória política" para Lula e sugere que a decisão seja tomada após as eleições.
No documento, o senador também propõe mudanças na relação comercial entre os dois países, incluindo uma flexibilização dos compromissos do Brasil no Mercosul.
Em resposta, Lula afirmou, em publicação nas redes sociais, que a família Bolsonaro age contra os interesses nacionais e classificou a iniciativa como uma "atitude de traidores da Pátria". O presidente acusou os adversários de tentar submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, defendeu o Mercosul e o Pix e voltou a afirmar que o país negociará "de igual para igual" com qualquer nação.
"Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois", publicou Lula no X (antigo Twitter). "Nossa Pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros."
Após a manifestação do presidente, Flávio também foi às redes sociais. Mais uma vez, voltou a dizer que Lula se beneficia do tarifaço e que não negociou a retirada das taxas.
"Provocou, esbravejou, não negociou e fez lobby a favor do PCC e do Comando Vermelho para que não fossem classificados como terroristas. Envergonhou o Brasil perante o mundo! Ignorou o sofrimento de mais de 50 milhões de brasileiros que moram em áreas dominadas por esses narcoterroristas", disse Flávio.