Encerrada no relato de dez capítulos de Lucas sobre a viagem de Jesus a Jerusalém, há uma narrativa que apresenta dez leprosos (Lucas 17:11–19). Impedidos pelas leis judaicas de pureza de se aproximarem de Jesus, esses dez leprosos clamam a ele à distância, implorando para serem curados. Jesus atende ao pedido deles com um teste de fé semelhante ao de Naamã: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes” (versículo 14). Todos os dez leprosos obedecem, descobrindo no caminho que foram purificados.
Nesse momento, um único leproso decide adiar seu encontro cara a cara com o sacerdote e protelar sua reintegração à sociedade para voltar atrás, encontrar Jesus e agradecer-lhe. Purificado e agora sem medo de espalhar sua terrível doença, ele se aproxima de Jesus, louvando a Deus em voz alta antes de prostrar-se aos pés de seu Salvador (versículos 15–16).
O que acontece a seguir pode ter surpreendido o leproso anônimo. Jesus adia seu habitual “tua fé te curou” (versículo 19) em favor de três perguntas penetrantes. A resposta de Jesus expõe simultaneamente uma realidade preocupante sobre a ingratidão e oferece um bálsamo curativo àqueles familiarizados com sua dor, uma dor que o Rei Lear de Shakespeare descreveu como “mais afiada do que o dente de uma serpente” (King Lear, 1.4.302–303).
1. “Não foram dez os que ficaram curados?”A primeira pergunta de Jesus expõe a prevalência da ingratidão: tantos foram curados, e ainda assim tão poucos voltaram. Ao chamar a atenção para os muitos que não voltaram para louvar e agradecer a Deus, Jesus revela a ingratidão como pecado e avalia corretamente seu peso. A ingratidão — uma cegueira à graça de Deus e a falha em honrá-lo com nosso agradecimento — provoca justamente a ira de Deus. Paulo a inclui em uma lista de pecados graves em Romanos 1, ao lado de coisas como idolatria, assassinato e imoralidade sexual (Romanos 1:21, 26–32).
Com sua pergunta penetrante, Jesus, longe de isentar a ingratidão, a expõe e lamenta sua prevalência.
2. ‘Onde estão os outros nove?’Semelhante à primeira, a segunda pergunta de Jesus sugere a dor da ingratidão. Apenas um entre dez homens tinha um coração devidamente voltado para Deus naquele momento. Apenas um voltou — apenas um — quando todos deveriam ter voltado. Onde estavam os demais? Eles também não haviam crido, obedecido e sido curados?
A proporção de 9:1 confronta os crentes com a possibilidade de que nós também possamos estar entre os nove. Podemos querer acreditar que somos aquele que voltou, único em virtude, mas esse encontro nos leva a parar e fazer um balanço. Estamos entre os nove? Com muita frequência, também demoramos a perceber a graça de Deus em nossas vidas. Seguimos alegremente com nossas vidas, consumindo os bons dons de Deus, quando, assim como o único leproso, deveríamos voltar e cantar com o hino,
Dissolvido pela tua bondade, caio por terra
e choro em louvor à misericórdia que encontrei.
3. “Não se encontrou ninguém, a não ser este estrangeiro?”A terceira pergunta destaca o único leproso como um estrangeiro entre o povo de Jesus; Lucas o identifica como samaritano (Lucas 17:16). Poderíamos esperar encontrar corações devidamente voltados para Deus entre as pessoas com quem Jesus vivia e servia, mas a triste realidade era esta: a maioria dos compatriotas de Jesus o rejeitou. Ele recebeu pouca gratidão daqueles que veio salvar, e poucos louvores a Deus saíram de suas bocas. Aqueles que professavam amar a Deus mais do que ninguém não apenas rejeitaram Jesus, mas o assassinaram. Na maioria das vezes, eram os estrangeiros e os marginalizados socialmente que percebiam mais rapidamente a graça de Deus para com eles em Jesus. Eram eles que imploravam para não se separarem dele (Lucas 8:38).
As perguntas penetrantes de Jesus desmascaram nossos próprios corações. Somos rápidos em ver a graça de Deus agindo em nossas vidas e em louvá-lo por isso? Agradecemos àqueles que são os meios por meio dos quais Ele realiza seus bons propósitos?
Jesus continuou caminhandoPor mais irregular que seja o registro da nossa gratidão para com Deus, nossas falhas pouco diminuem a dor que sentimos ao experimentar a ferida da ingratidão. As feridas causadas por filhos, cônjuges, amigos, membros da igreja e líderes da igreja ingratos mal chegaram a cicatrizar; permanecem prontas para se abrir novamente e sangrar. E, quando isso acontece, a amargura inunda nossos pensamentos, e o orgulho e a ira procuram restabelecer domínio em nosso coração.
Veja bem, após esse episódio, sem se deixar abalar pela contínua ingratidão de seu povo, Jesus mais uma vez “pôs o rosto para ir a Jerusalém” (Lucas 9:51). Havia mais quilômetros a percorrer, mais pessoas para curar, mais pecados para perdoar, mais parábolas para contar. Zaqueu estaria esperando em uma árvore de sicômoro, e um mendigo cego ao longo da estrada de Jericó. Havia a Última Ceia para preparar e instruções de última hora para dar aos seus discípulos. Havia a cruz, o túmulo e a coroa. O tempo era curto, e nada impediria Jesus de completar sua jornada.
Assim, seguimos os passos de Jesus, acompanhando-o o mais de perto que ousamos. Cientes de que poucos podem louvar a Deus, poucos podem voltar para nos agradecer, e aqueles que o fazem são frequentemente aqueles de quem menos esperaríamos, nós, no entanto, voltamos nossos rostos para Jerusalém e assumimos nossas cruzes designadas, pois o tempo é curto e muito ainda resta a ser feito.