A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre existir agentes da PF (Polícia Federal) que “fingem que trabalham” geral mal-estar dentro da corporação policial, composta por delegados e outros servidores. A ADPF (Associação dos Delegados de Polícia Federal) divulgou uma nota pública em que diz que “não há qualquer fundamento para questionamentos generalizados” sobre a dedicação ou desempenho desses servidores.
Segundo o comunicado, as falas do presidente “colocam em dúvida o comprometimento de delegados da Polícia Federal, ao dizer que profissionais estariam ‘fingindo trabalhar’”, e “simplifica indevidamente o tema segurança pública e o combate ao crime organizado”.
Na quinta-feira (23), Lula disse que ordenou que o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, fizesse a convocação de agentes da PF que, segundo o petista, não estariam trabalhando.
“Ontem (22), eu mandei o ministro da Justiça fazer uma nota convidando todos os delegados da Polícia Federal que estão fora da PF, para aqueles agentes ou delegados que estão em outro lugar fingindo que estão trabalhando. Todos vão ter que voltar, porque nós vamos combater o crime organizado aqui”, disse o presidente da República.
No comunicado, a associação ainda pontua que, atualmente, 53 delegados estão cedidos a outros órgãos, o que representa menos de 3% do total de delegados em exercício.
“Portanto, não se deve induzir a sociedade a acreditar que a anunciada medida de retorno será o que irá vencer o crime organizado”, rebateu a ADPF.
A nota finaliza ao dizer que o enfrentamento ao crime organizado exige “menos propaganda e mais ações concretas”, com investimentos contínuos nos profissionais e inteligência estratégica. “Declarações que desqualificam policiais não contribuem para esse objetivo e fragilizam o debate público sobre segurança”, disse.
A fala de Lula vem em meio à uma crise que foi instalada com a expulsão dos Estados Unidos do delegado Marcelo Ivo. Ele era o representante do Brasil, via PF, no ICE, a polícia de imigração em território estadunidense. O servidor participou do episódio que levou à detenção o ex-deputado federal Alexandre Ramagem.
Pelo princípio da reciprocidade, o Brasil retirou a credencial de um agente norte-americano que trabalhava para os EUA na sede da PF, em Brasília. O delegado brasileiro já voltou ao Brasil e o agente estadunidense também já retornou ao seu país de origem.