Na cultura “pós-moderna”, marcada pela busca de autonomia absoluta e pela rejeição de qualquer autoridade externa, a soberania de Deus soa como afronta. Vivemos em tempos em que a liberdade é exaltada como valor supremo, mas, paradoxalmente, ela mesma nos aprisiona em ansiedades e inseguranças. Defendemos princípios até que nos contrariem e, não raro, transformamos interesses pessoais em “princípios” de vida.
Entre as doutrinas que mais sofrem com essa oscilação está a soberania de Deus. Em tempos de estabilidade, preferimos falar de nossa autonomia e capacidade de escolha. Mas quando nos vemos sem recursos, aflitos ou desorientados, recorremos à fé singela: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”.
Calvino (1509-1564) observou com precisão: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.
A dificuldade humana em deixar Deus ser DeusO coração humano resiste em receber a Deus como Ele Se revela. Desde o Éden, quando Adão e Eva desejaram “ser como Deus” (Gn 3.5), a humanidade insiste em moldar o Criador à sua própria imagem. Paulo descreve esse movimento em Romanos 1: os homens trocam a glória de Deus por ídolos, preferindo adorar a criatura em vez do Criador.
Quando julgamos dominar a realidade, dispensamos Deus; quando não, criamos um “deus” à nossa medida para justificar crenças ou incredulidade. A Teologia Reformada chama isso de depravação total: não apenas fazemos escolhas erradas, mas nossa própria vontade é inclinada contra Deus.
O Antigo Testamento mostra como Israel confundiu o silêncio de Deus com aprovação tácita de seus pecados. O Senhor, porém, os advertiu: “Pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino comenta: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.
A soberania como escândalo e consoloCuriosamente, os homens reconhecem espontaneamente atributos como amor, graça e perdão, mas rejeitam a soberania. Pink (1886-1952) advertiu: “Negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo”.
O tema da soberania esteve no centro da Reforma. Lutero (1483-1546), em sua obra De Servo Arbitrio, confrontou Erasmo (1466-1536) ao afirmar que a vontade humana está cativa e só a soberania divina liberta. Mais tarde, debates sobre predestinação marcaram concílios e denominações.
Enquanto o deísmo moderno concebia um Deus distante, que não intervém, a fé cristã proclama um Deus soberano que governa cada detalhe da história.
A soberania é a doutrina mais repudiada pelo homem natural e, ao mesmo tempo, a mais consoladora para o crente. Jó expressa nossa limitação diante do mistério divino: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Ainda assim, é justamente na confiança na soberania de Deus que encontramos paz em meio às vicissitudes da vida.
O Conhecimento como dom da graçaNosso conhecimento de Deus é sempre “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor e condicionado pela realidade do pecado humano. É um saber acerca de Deus como Senhor e, ao mesmo tempo, sujeito a Ele.
Como seres finitos, não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez; nossa perspectiva é limitada por nossa própria finitude. Conhecer a Deus é iniciativa da graça divina: é fé que nasce da graça. Por isso, não somos padrão de verdade; precisamos validar nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.
Somente Deus é soberano, e somente a partir Dele podemos conhecê-Lo. Esse conhecimento nos liberta para compreender a nós mesmos e a realidade ao nosso redor, sustentando-nos inclusive nos momentos de dor, quando a medicina falha, o emprego é perdido ou a morte visita o lar. É a certeza de que Deus reina que consola e fortalece o crente.
Conclusão pastoralA soberania de Deus não é um conceito abstrato, mas um fundamento para a vida cristã. Nela repousa nosso consolo: saber que o Senhor reina, que nada escapa ao Seu governo e que Suas promessas sustentam nossa esperança.
Uma família que perde um ente querido encontra consolo não em explicações humanas, mas na certeza de que “o Senhor reina” (Sl 93.1). Assim também, o missionário que enfrenta perseguição persevera porque confia que Deus governa até sobre os corações mais endurecidos.
E, finalmente, é a soberania que garante nosso futuro: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5). O governo eterno de Deus culminará na restauração plena.
Deixemos Deus ser Deus, conforme a Sua revelação, e descansemos nos Seus cuidados. A verdadeira paz nasce quando reconhecemos que Ele é soberano e que, em Cristo, somos guardados por esse governo eterno. Amém.