A aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o americano Donald Trump pode estar ameaçada. Nos últimos dias, a articulação bolsonarista nos Estados Unidos deu sinais de que retomou força junto ao Departamento de Estado americano e à Casa Branca.
A leitura no governo é que o retorno da proposta de equiparar facções brasileiras a organizações terroristas e a vinda de um conselheiro de Trump ao Brasil têm relação direta com a corrida presidencial em outubro.
Integrantes do governo Lula já admitem, sob reserva, a incerteza sobre o futuro do diálogo que vinha sendo construído com Trump. Prevista para março, a viagem de Lula à Casa Branca segue sem data para ocorrer.
Para diplomatas ouvidos pela CNN Brasil, o movimento indica a volta a campo dos membros do MAGA (Make America Great Again), ala mais radical do governo Trump, para ajudar aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A viagem do assessor de Trump, Darren Beattie, ao Brasil, na próxima semana, na avaliação de membros do Itamaraty, aparenta ser apenas uma agenda de fachada para que o funcionário do Departamento de Estado americano se reunisse com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), atendeu ao pedido da defesa de Bolsonaro e autorizou a visita na Papudinha. Porém, o magistrado reviu sua decisão nesta quinta-feira (12) e negou a visita após ser alertado pelo Itamaraty de que o encontro de um funcionário do governo dos Estados Unidos com um ex-presidente brasileiro em ano eleitoral poderia configurar ingerência em assuntos internos do país.
"A visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro", afirmou o chanceler Mauro Vieira em ofício encaminhado a Moraes.
Em resposta a Moraes, o ministro das Relações Exteriores cita ainda que, até quarta-feira (11), não havia nenhuma agenda diplomática previamente acordada com o assessor de Trump. E destacou que o pedido de visita a Bolsonaro não se enquadra nos objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado.
Segundo o Itamaraty, a viagem do conselheiro de Trump foi comunicada por nota diplomática em 10 de março. Beattie chega a Brasília na segunda-feira (16), segue para São Paulo no dia seguinte e retorna aos EUA no dia 18.
"O visto de entrada foi concedido com base em pedido que indicava a participação do funcionário do Departamento de Estado em evento para promover as relações bilaterais e em reuniões oficiais", esclarece Vieira. Segundo ele, a visita a Bolsonaro não foi mencionada.
Darren Beattie é apontado como um dos responsáveis pela articulação de sanções contra o magistrado com base na Lei Magnitsky e já fez críticas diretas ao ministro do STF. Em publicações nas redes sociais em agosto do ano passado, classificou Moraes como “o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição direcionado a Bolsonaro e seus apoiadores”.
O assessor é considerado um aliado próximo da família Bolsonaro, especialmente do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). No governo Trump, ele passou a atuar em cargos de alto escalão no Departamento de Estado e foi designado para acompanhar temas relacionados ao Brasil.
FacçõesPara integrantes do governo brasileiro e do PT, a retomada da proposta dos Estados Unidos de equiparar facções brasileiras a organizações terroristas também acende o alerta de uma tentativa americana de influenciar na disputa eleitoral.
Rechaçada pelo governo Lula, que vê um risco à soberania, a ideia tem o apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.
A sigla e o próprio Palácio do Planalto sempre trataram como possibilidade uma ofensiva de Trump na disputa presidencial no Brasil, na tentativa de projetar a direita na América Latina. Peru e Colômbia também têm eleições neste ano.
No domingo (8), o ministro das Relações Exteriores conversou com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre uma parceria para o combate ao crime organizado. A tentativa do governo brasileiro é ganhar tempo até Lula se encontrar com Trump pessoalmente.