O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou nesta quarta-feira (18) a Nova Délhi, dando início a uma visita que tem o objetivo de ampliar a parceria estratégica com a Índia e discutir alianças entre os países do sul global para a defesa do multilateralismo.
A viagem inclui a visita de Estado, com encontros privados com o primeiro-ministro Narendra Modi, e a participação do presidente na Cúpula Internacional sobre o Impacto da Inteligência Artificial, organizada pelo governo indiano e que reúne líderes políticos e executivos de algumas das maiores empresas globais de tecnologia.
A viagem acontece no momento de maior proximidade na relação entre Brasil e Índia, tanto no campo geopolítico como econômico.
Nos últimos dois anos, aumentou o número de missões empresariais brasileiras no país asiático, e também se intensificaram projetos conjuntos em defesa, ciência, tecnologia e inovação.
A economia indiana cresce em ritmo acelerado, de mais de 6% ao ano, em média nos últimos cinco anos, e o país se consolida como um dos principais polos industriais e tecnológicos do mundo em desenvolvimento.
Os dois países também estão sendo cada vez mais assertivos no cenário geopolítico, defendo posições similares, por exemplo, com relação à defesa do multilateralismo, do livre comércio e na tentativa de ampliar o peso do chamado Sul Global em todos os fóruns internacionais.
Objetivos da viagemLula terá dois compromissos centrais durante a visita.
O primeiro é a participação nas discussões sobre a necessidade de criação de regras globais para o uso da inteligência artificial, que deve ocupar lugar importante na cúpula.
Os governos do Brasil e da Índia têm defendido uma forte regulação global do tema para maximizar os benefícios dessa reforma tecnológica, mas também para tentar impedir os seus efeitos negativos, como uso contra valores democráticos e extinção súbita de milhões de postos de trabalho.
É possível, no entanto, que tanto Lula como Modi moderem parcialmente os seus discursos para evitar algum confronto direto com o governo dos Estados Unidos, já que o presidente Donald Trump é contra esse tipo de regulação — e tanto Índia como Brasil ainda têm muitos itens para acertar na relação com a Casa Branca.
Visita de EstadoDepois da cúpula de IA, Lula dará início à visita de Estado propriamente dita. A pauta de discussões é extensa e vai muito além dos tradicionais acordos comerciais.
Os dois líderes pretendem tratar da situação internacional, da defesa do multilateralismo e da necessidade de reformas nas instituições globais, sobretudo nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança, uma reivindicação histórica tanto do Brasil quanto da Índia.
A guerra em Gaza e outras crises internacionais também devem entrar nas conversas.
Tanto Lula como Modi foram convidados pelo presidente Trump para fazer parte do chamado Conselho de Paz para discutir a reconstrução de Gaza. Os líderes, no entanto, ainda não deram uma resposta final sobre suas possíveis participações.
A posição defendida pelos dois países tem sido a de reforçar soluções diplomáticas, a reconstrução das áreas devastadas e a preservação de mecanismos multilaterais de negociação, em um cenário internacional cada vez mais polarizado.
Minerais estratégicos e indústriaEntre os resultados mais concretos esperados da visita está a assinatura de acordos na área de minerais críticos e terras raras.
Trata-se de um tema que ganhou peso na política externa de vários países por causa da transição energética e da corrida tecnológica, que tem dado considerável vantagem para a China em relação aos Estados Unidos.
Brasil e Índia vêm defendendo uma linha semelhante para a questão, dizendo que não querem apenas extrair e exportar esses recursos como simples commodities.
A ideia é desenvolver cadeias industriais capazes de processar e transformar esses minerais localmente, gerando empregos, tecnologia e valor agregado nos dois países.
Para diplomatas das duas nações, esse é um campo em que a cooperação pode crescer de forma consistente nos próximos anos.
Outro ponto de destaque é o setor aeronáutico.
A brasileira Embraer vem ampliando sua presença na Índia, que hoje é um dos mercados mais promissores do mundo para a aviação regional e para a indústria de defesa.
A expectativa é que a visita ajude a impulsionar negociações com empresas locais e abra espaço para novos contratos.
Por fim, e como em quase todas as viagens internacionais do presidente, a área agrícola também aparece como prioridade.
O governo brasileiro tenta ampliar o acesso de produtos como carne de frango e feijão ao mercado indiano, onde há grande demanda por alimentos básicos.
Ao mesmo tempo, a Índia é um importante parceiro na discussão sobre segurança alimentar e produção agrícola em larga escala.
O comércio bilateral tem crescido de forma consistente e já alcança patamares recordes.
Os dois governos trabalham com a meta de elevar significativamente esse intercâmbio até o fim da década, enquanto avançam com as negociações para ampliar o acordo comercial entre a Índia e o Mercosul, iniciativa considerada essencial para reduzir barreiras e estimular novos investimentos.