Resumo: Em Gênesis 33–37, as histórias de Jacó, Esaú e seus filhos nos levam a pensar no que realmente deixamos para trás — e no que ainda seguirá adiante por meio da nossa genealogia. Do cotidiano de quem vive no Brasil (e até em Brasília, uma cidade marcada por decisões de migração e recomeço), o texto conecta memória familiar, herança espiritual e reconciliação entre irmãos, mostrando como padrões de pecado podem se repetir, mas como a graça de Deus também pode interromper ciclos e semear esperança para as próximas gerações. Leia abaixo o artigo deste excelente e criativo escritor, Emílio Garofalo Neto, ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear, em Brasília, DF. Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, completou seu Ph.D. no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.
Como nossos filhos nos levam adiante? Em que a pequena fase que temos aqui, com tempo limitadíssimo, com recursos parcos, vai resultar? Como minha genealogia refletirá quem fui? O que deixaremos para os outros? E como os nossos filhos nos veem e nos abençoam de volta?
Genealogias são bons lembretes de que a vida se estende para trás e para adiante no tempo. Tente fazer a sua genealogia. Pode ser aí, à mão mesmo, improvisado em um guardanapo. Liste seus pais. Tarefa fácil em geral, mas nem sempre. Coloque seus irmãos. Liste seus tios. Alguns têm apenas dois casais de tios, como eu, enquanto outros têm uma legião, como minha esposa. Vá subindo na lista de nomes e ela vai ficando difícil: avós, bisavós, tataravós e outras pessoas que entrarão na categoria geral “antepassados”. Mova-se lateralmente na árvore genealógica tentando preencher com os irmãos de seus avós ou bisavós e vai ficando muito difícil. Quantas lacunas, não?
Pense em como sua genealogia mudou sua vida. Eu moro em Brasília. Ninguém morava aqui cem anos atrás. Alguém decidiu vir. E, com isso, marcou minha vida. Você mora no Brasil. Apenas os nativos moravam aqui seiscentos anos atrás. Alguém, então, decidiu cruzar o marzão. Alguém decidiu vir, ou foi forçado a vir. E isso fez com que sua vida fosse diferente. Seus problemas de coração, sua unha que encrava, suas respostas instintivas a certas situações, seu time do coração, sua alergia a ácaros, seu medo de barata; muitas vezes sua genealogia se meteu nisso tudo.
Mas veja que sua genealogia está incompleta. E não apenas pelo que veio antes. Mas principalmente pelo que vem abaixo de você. Pode ser que você já tenha alguns nomes no andar de baixo, seus filhos. E até mesmo um nível ainda mais abaixo, o dos netos, ou mesmo bisnetos! E depois? Mas e seus descendentes daqui a cem anos, o que eles saberão sobre você? Que influência imperceptível terá vindo de sua própria trajetória?
Eu tenho uma filha. Ela leva meu nome. Meus netos serão diferentes por minha causa. Minha influência na vida das próximas gerações será real, ainda que eles não saibam como.
Um dia, seremos lançados na terra e provavelmente teremos um epitáfio. É bonito pesquisar epitáfios por aí — alguns são hilários, outros apenas tristes. Outros tristes ao mesmo tempo que hilários. O que você quer no seu? Que digam qual era seu doce favorito? Que listem quantos títulos seu time de futebol venceu?
Em um senso mais amplo, seu epitáfio será a sua obra. Se um dia você for visitar a impressionante Catedral de St. Paul em Londres, um edifício magnânimo, procure pela tumba de Sir Christopher Wren, o projetista. Está lá no meio da catedral. E diz: “Se procuras o monumento dele, olhe ao redor”. Meu epitáfio de pedra será uma frase bonita ainda a ser escolhida. Mas meu epitáfio mesmo será a Débora. E quem vier depois.
Os nossos herdarão nossa fé? Ou apenas nosso nome? Como nossos irmãos se sairão nessa mesma tarefa?
Isaque não foi um pai muito bom. E Rebeca não foi uma mãe muito sábia. Falamos sobre isso nos capítulos anteriores. O triste é ver como esses padrões seguiram no próprio Jacó, e em Esaú, de uma forma ainda pior. Entre irmãos, pais e filhos, temos vislumbres do mau caminho do pecado, e da esperança da graça de Deus.
Neste capítulo, vamos resumir os eventos dos capítulos 33 a 37 de Gênesis e considerar a questão dos irmãos e filhos. Vamos passar um tanto rapidamente pelas histórias, lidando com esse tema das heranças e com o que estamos semeando na vida dos nossos. São capítulos muito interessantes. No capítulo 33, temos a reconciliação dos irmãos Esaú e Jacó. No 34, a história da tragédia de Diná. No 35, Jacó chega a Betel e nós temos a genealogia dele. No 36, visitamos a genealogia de Esaú. E, no 37, começa a história de José. Sugiro que leia os capítulos bíblicos antes de ler meu tratamento sobre eles.
Irmãos podem se reconciliar (Gn 33)
É possível curar velhas feridas? Estamos no pano de fundo da velha rivalidade entre irmãos. Os gêmeos Esaú e Jacó já nasceram brigando. E protagonizaram alguns dos episódios de rivalidade fraternal mais famosos da história humana. Como tratamos em outros capítulos, além do pecado dos dois, a má capacidade de criação dos filhos de Isaque e Rebeca não contribuiu para um bom caminho.
Tudo indicava uma situação tensa. Todos conhecemos a ansiosa expectativa de uma confrontação pessoal, não? Ensaiamos nossas falas. As palmas das mãos podem suar. O estômago fica irritado, o sono desaparece. Por certo, Jacó tinha péssimas expectativas quanto a esse encontro.
Porém, como este capítulo nos mostra, é possível, ainda assim, viver com certa civilidade e haver até mesmo reconciliação. Jacó voltou e, no caminho, estava com muito medo de seu irmão. Enfrentou o Senhor e saiu da luta como um homem mudado. No capítulo 33, quem se encontrou com Esaú não foi mais o velho Jacó, mas Israel. E, felizmente, a ira de Esaú havia amainado. Vejamos uma porção do capítulo:
Levantando Jacó os olhos, viu que Esaú se aproximava, e com ele quatrocentos homens. Então, passou os filhos a Lia, a Raquel e às duas servas.
Pôs as servas e seus filhos à frente, Lia e seus filhos atrás deles e Raquel e José por últimos.
E ele mesmo, adiantando-se, prostrou-se à terra sete vezes, até aproximar-se de seu irmão.
Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram.
Daí, levantando os olhos, viu as mulheres e os meninos e disse: Quem são estes contigo? Respondeu-lhe Jacó: Os filhos com que Deus agraciou a teu servo. (Gn 33.1-5)
O medo da parte de Jacó era grande. Ao organizar sua família e suas posses, ele protegeu o que tinha de mais precioso. Notou que ele colocou Raquel e José por último (v. 2)? Assim, ele lhes daria maior chance de escapar, caso tudo desse errado. Mas aquilo que parecia que iria terminar em sanguinolência terminou em abraço e choro saudoso. Há esperança para relacionamentos que se esgarçaram ao ponto da ruptura. Eles conversaram por um tempo. Jacó mostrou sua família a Esaú.
Esaú perguntou sobre os presentes enviados — a princípio, recusou, mas depois aceitou-os. Esaú ofereceu-se para acompanhar Jacó, mas esse declinou. Jacó acabou indo se estabelecer próximo a Siquém.
O capítulo traz uma nota positiva. Até mesmo famílias que começam mal, com o tempo, podem ser tratadas. Há muitos irmãos que, depois de anos vivendo juntos, deixam de se falar. Feridas infeccionadas, venenos nunca extraídos. O evangelho, porém, oferece antídotos e remédios para todas as moléstias relacionais que existem. Até Esaú e Jacó podem voltar a se abraçar.
O finalzinho do capítulo, porém, pode preocupar um pouco o leitor atento. Em uma situação anterior no livro, Abraão e Ló se separaram, e Ló foi se estabelecer próximo a Sodoma (Gn 13). Isso não acabou nada bem. Dessa vez, Esaú e Jacó se separam, e Jacó, estranhamente, vai se estabelecer com os seus bem pertinho de uma cidade pagã chamada Siquém. Será que essa família terá dias felizes pela frente?
Por: Emilio Garofalo Neto.
Emilio Garofalo Neto é ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear em Brasília, DF. Completou seu Ph.D no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor de teologia sistemática no Seminário Presbiteriano de Brasília e professor visitante em teologia pastoral no CPAJ. Emilio escreve outros artigos e contos em seu blog pessoal