Sobre o suicídio de pastores: uma visão simplista é sempre cruel
Sexta-feira, 04 de Outubro de 2019    06h35

Sobre o suicídio de pastores: uma visão simplista é sempre cruel

Fonte: Voltemos ao Evangelho
Foto: Divulgação

Não tive tempo de me inteirar bem [as notícias são tantas o tempo todo], mas parece que mais um colega de ministério pastoral tirou a própria vida nos últimos dias. Se não me engano, ele fez isso depois de postar algo sobre esgotamento e cansaço nas redes sociais.

É lamentável que qualquer pessoa atente contra a sua própria vida. O suicídio é uma desgraça; talvez, das maiores que podemos enfrentar. Eu nutro profunda compaixão pelas pessoas que chegaram a esse ponto. Me identifico com elas. Afinal, creio na depravação total; não apenas na dos outros, mas também na minha. Também nutro compaixão pelas pessoas que perderam entes queridos desta maneira tão trágica. Não sei se consigo sequer imaginar o que isso significa. Oro por elas e devo dizer que esse texto, definitivamente, não é o que eu lhas diria no momento do sofrimento.

Decidi escrever esse texto porque, desde que a questão do suicídio entre pastores começou a ser noticiada com maior frequência nas redes sociais, algo [além dos acontecimentos em si, obviamente] tem me incomodado um pouco: algumas pessoas parecem estabelecer uma relação muito direta e quase determinista entre a opção pelo suicídio e o ambiente eclesiástico e os desafios do ministério pastoral. Para mim, essa é uma leitura muito superficial do problema, que mais atrapalha do que ajuda. Na tentativa de não ser cruel com algumas pessoas ela é cruel com outras e, no final das contas, é injusta para com Deus.

Para situar o nosso entendimento sobre esse problema devemos nos lembrar que somos seres criados para fora, e isso significa que o ambiente externo exerce influência sobre as nossas escolhas. Nós vivemos num mundo decaído, cheio de tragédias, conflitos relacionais e injustiças, e como a igreja está neste mundo e manifesta todas essas coisas perniciosas, seria ingênuo dizer que o ambiente eclesiástico e os desafios postos pela realidade do ministério pastoral nada tem a ver com as decisões dos colegas que atentam contra a própria vida. É claro que tem! Mas daí a responsabilizar e a “quase naturalizar” essa atitude em virtude do ambiente externo há uma grande distância.

Ao mesmo tempo em que fomos criados para fora, fomos criados para funcionar a partir de dentro. Como imagem de Deus, cada um de nós elabora as situações que vivenciamos no ambiente externo e faz escolhas a partir desta elaboração. Não fosse o pecado, essa tarefa seria, obviamente, mais fácil. O pecado complicou bastante a nossa vida neste particular, não apenas nos colocando em situações difíceis de serem elaboradas, mas também anuviando nossa mente e coração, que sãos os órgãos pelos quais elaboramos os fatos da vida. Deus, contudo, não nos deixou desamparados. Ele nos deu a sua Palavra e o seu Espírito. Ele não nos deixou sem luz e sem poder para elaborarmos as situações difíceis vividas em um mundo mau – até mesmo aquelas que são causadas pela sua igreja – a fim de reagirmos a elas corretamente. Essa maneira simplista que estou acusando aqui parece se esquecer disso.

Qual é o meu objetivo ao dizer essas coisas: tomar o todo da culpa e lançar sobre aquele que atenta contra a própria vida? De modo nenhum! Isso seria cruel com ele, e, principalmente, com os seus queridos, que já tem o desafio enorme de elaborar uma situação tão trágica. O que quero é esclarecer que cometemos crueldade semelhante quando somos simplistas e lançamos a culpa sobre a igreja ou sobre as ovelhas, que também são pessoas. Me pergunto: o que queremos quando fazemos isso? Que as ovelhas de nossos colegas que atentaram contra a própria vida se martirizem por um dia terem discordado de seu pastor ou terem levado a ele os seus problemas? Que as nossas ovelhas se sintam ameaçadas? O suicídio é um problema complexo e não pode ser tratado de maneira simplista, sem efeitos colaterais.

Eu suspeito de que jamais saberemos com exatidão tudo o que está envolvido nesse problema tão complexo. Por isso, tenho duas sugestões: evitemos abordagens simplistas, que são sempre se tornam cruéis; e, ao invés de nos preocuparmos com a busca do culpado ou com a determinação do destino eterno daqueles que se foram, pensemos sobre o que podemos fazer para manter este problema longe de nós. No que diz respeito aos pastores: sim, eu creio que as ovelhas podem nos ajudar. É bom contar com o apreço delas e sermos tratados com justiça. Também é bom desfrutar de um ambiente eclesiástico de respeito, colaboração e fraternidade, onde até mesmo as discordâncias são vistas como atos de amor. Estimulo às ovelhas que ajudem os seus pastores fazendo todas essas coisas. Mas há algo que cabe a nós fazer: cuidar do nosso coração e avaliar constantemente as nossas motivações e a nossa visão do ministério pastoral, apegando-nos exclusivamente ao Senhor de nossa vocação. As lutas existirão sempre. Elas são, por um lado naturais, e, por outro, resultado do pecado. Nosso desafio é elaborá-las corretamente. E a boa notícia é que Deus não exige que façamos isso sozinhos. Nós somos acompanhados pela graça, evidenciada principalmente, nas dádivas da Palavra e do Espírito, mas também da preparação física, dos nutricionistas, da medicina, dos amigos, da arte, da igreja [que tem os seus muitos problemas, mas ainda é o melhor lugar do mundo], do culto etc. Valhamo-nos de todas essas coisas; e que Ele tenha misericórdia de nós!

Por: Filipe Fontes

Filipe Fontes: Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Rev. José Manoel da Conceição. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Licenciatura Plena em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção. Mestre em Teologia (THM) com concentração em Filosofia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutor em Educação, Arte e história da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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