Uma reflexão cristã sobre correria e cansaço
Sexta-feira, 16 de Agosto de 2019    07h02

Uma reflexão cristã sobre correria e cansaço

Fonte: Voltemos ao Evangelho
Foto: Divulgação

Vivemos em um mundo exigente. O resultado é que, frequentemente, temos estado ocupados demais e o cansaço tem se tornado uma de nossas experiências mais comuns. O objetivo deste texto é lidar com este assunto e oferecer, de modo bem resumido, uma visão cristã desta experiência.

Creio que uma visão cristã do cansaço deve considerar três coisas:

1. O cansaço é uma experiência natural. Somos criaturas, limitadas e finitas, e fomos criados com um objetivo grandioso: espelhar a imagem do Criador no contexto de uma tríplice relação – com ele, com os demais seres humanos e com as demais criaturas. Se considerarmos as atividades envolvidas no cumprimento deste objetivo, e, paralelamente, as nossas limitações e finitude, será pouco provável não considerarmos o cansaço algo mais do que esperado.

2. Atualmente, temos uma experiência maximizada de cansaço. Nós não vivemos no mundo exatamente tal qual foi criado por Deus. Vivemos em um mundo quebrado. Logo, nós não vivenciamos mais os relacionamentos para os quais fomos criados, da maneira como fomos criados para vivenciá-los. Deus nos criou para um relacionamento harmônico com o nosso semelhante. Mas, atualmente, esse relacionamento é marcado por tensões e desentendimentos. Deus nos criou para um relacionamento harmônico com o mundo. Mas hoje o mundo oferece resistência à nossa tentativa de desenvolvê-lo. O pecado quebrou o mundo. E as quebraduras feitas por ele maximizam nossa experiência de cansaço. Elas fazem isso obrigando-nos a atividades que antes não tínhamos de realizar (como a reconciliação em relacionamentos, por exemplo) e, principalmente, impondo sobre nós uma sensação constante de insatisfação. No mundo quebrado, além de lidar com um número maior de atividades, temos que lidar com o fato de que os resultados delas costumam estar sempre aquém do que gostaríamos, e, não poucas vezes, do esforço que empregamos. Isso também nos cansa. 

3. A nossa experiência de cansaço pode ser maximizada ainda mais. O pecado não quebrou apenas os outros e o mundo. Ele nos quebrou também, e uma de suas maiores quebraduras em nós foi o egoísmo, que pode possuir uma relação bastante estreita com o nosso cansaço. Você já pensou que o cansaço pode ser maximizado pelas motivações egoístas que nutrimos? É o acontece, por exemplo, quando realizamos nossas atividades motivados, mais profundamente, pelo desejo de sermos reconhecidos pelas pessoas. O desejo de alcançarmos esse reconhecimento, ou o medo de sermos mal reconhecidos, pode levar-nos a dizer mais sim do que não, a colocarmos sobre os ombros mais peso do que conseguiríamos carregar, desequilibrando nossa existência pessoal. Motivações egoístas costumam também tornar mais comum a experiência de frustração pelos resultados não alcançados. Quanto mais vivemos exclusivamente em função nós mesmos, mais chance temos de chegar ao fim de um dia de trabalho com a sensação de não ter feito nada útil. Nessas condições, cada imprevisto, por menor que seja, e apesar das oportunidades de realização que ofereça, desestabiliza-nos, por impedir-nos de alcançar o nosso alvo maior: aquilo que nós planejamos; a nossa própria vontade. Motivações egoístas podem estar na base do cansaço expresso pela reclamação rancorosa: que dia ruim! Não fiz nada do que eu queria fazer!

Tendo esse entendimento, podemos nos perguntar: seria possível evitar a experiência de cansaço? A resposta é não. Tanto pela nossa condição criacional, quanto pela nossa condição decaída, o cansaço é uma experiência inevitável para nós. Mas, seria possível minimizá-la? Ou, pelo menos evitar que ela se torne ainda maior? Nesse caso a resposta é sim. Não podemos evitar o cansaço, mas podemos evitar que ele se torne maior.

Há duas coisas mais urgentes a fazer para que isso aconteça. A primeira é cultivar esta visão adequada do mundo, ou seja, nos apropriarmos continuamente de uma cosmovisão cristã. Muito do cansaço que experimentamos pode ser derivado de sustentarmos um falso entendimento sobre quem somos e para o que existimos. Nós maximizamos o cansaço quando assumimos a mentalidade comum de que o trabalho é um mal necessário, e o sentido da vida está mais relacionado à diversão do que ao trabalho. Afinal, quem acredita que nasceu para viver em um resort, de pernas para o ar, tenderá a se sentir muito mais penalizado à mesa de um escritório. A segunda e mais fundamental [inclusive para a primeira] é liberdade. Não a liberdade frequentemente defendida e desejada pelo mundo contemporâneo – a ausência de limites e restrições – mas a liberdade da escravidão de si mesmo [do egoísmo], para o serviço a Deus e ao próximo. Quando desfrutamos dessa liberdade somos menos tendentes ao desequilíbrio de agenda que suplanta prioridades e à frustração pelos resultados não alcançados. Podemos mais facilmente manter a estabilidade diante de imprevistos, uma vez que, ao invés de vê-los como empecilhos, passamos a vê-los como oportunidades inesperadas de cumprimento de nosso objetivo maior: o serviço a Deus. Quando desfrutamos dessa liberdade podemos dizer não, ainda que isso custe algo de nossa autoimagem e reconhecimento.

A pergunta final é: como desfrutar dessa liberdade? A resposta bíblica que ela é oferecida gratuitamente por Deus, na pessoa de Jesus Cristo, seu Filho (2 Coríntios 5.15), e passa a ser desfrutada por todos os que, simplesmente, atendem ao seu convite: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mateus 11.28-30).

Por: Filipe Fontes. 

Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Rev. José Manoel da Conceição. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Licenciatura Plena em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção. Mestre em Teologia (THM) com concentração em Filosofia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutor em Educação, Arte e história da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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